Leishmaniose Canina

A leishmaniose é uma doença provocada por um protozoário do gênero Leishmaniaque, de acordo com sua espécie, pode produzir manifestações cutâneas, muco cutâneas, cutâneas difusas e viscerais. Tal microorganismo é classificado em dois grandes grupos, sendo um deles o causador da leishmaniose tegumentar e o outro da leishmaniose visceral.
Dentre as espécies de Leishmania, quatro delas possuem maior importância no Brasil devido à sua maior distribuição em todo o país. Três delas, as espécies Leishmania braziliensis, Leishmania amazonensis e Leishmania guyanensis são as mais comumente observadas como causadoras da leishmaniose tegumentar americana. Esta é considerada uma das endemias de maior importância em saúde pública no Brasil, devido a sua ampla distribuição pelo território nacional, a ocorrência de formas clínicas graves e pelas dificuldades referentes ao seu diagnóstico e tratamento.

A Leishmania chagasi é o agente etiológico causador da leishmaniose visceral no Brasil.
Popularmente conhecida como Calazar, até alguns anos atrás, era considerada como doença própria de ambientes silvestres e rurais. No entanto, sua prevalência vem aumentando no país, tanto no número de casos como também na dispersão geográfica da doença. Possui nos cães o seu principal reservatório, quando fora do ambiente silvestre, e a infecção no homem normalmente é precedida por casos caninos.

Do ponto de vista epidemiológico, portanto, a leishmaniose em cães é considerada mais importante do que em humanos, pois, além de ser mais prevalente, apresenta grande contingente de animais infectados com parasitismo cutâneo, que servem como fonte de infecção para os insetos vetores, sendo um importante elo na transmissão da doença para o homem.
Trata-se de uma doença que ocorre em 18 dos 27 estados brasileiros, e estima-se que, nas áreas endêmicas, a prevalência de leishmaniose se apresente em torno de 20 a 40% da população canina, sendo este um número alarmante e que a torna uma das doenças mais importantes na rotina clínica veterinária, não só por sua gravidade e letalidade para cães, mas também por se tratar de uma antropozoonose (doença em animais que acomete o homem).
A principal forma de transmissão ocorre através da picada do inseto vetor ou flebótomo Lutzomyia longipalpis, que se infecta quando realiza repasto sanguíneo em um animal ou homem infectado, ingerindo o parasita presente na derme e transmitindo-o em seu próximo repasto. Popularmente conhecido como "mosquito-palha", é menor do que os pernilongos comuns e possui coloração amarela, cor de areia, parecida com a palha de milho. Possui hábitos matinais e vespertinos, ou seja, sai para se alimentar de manhã bem cedo e ao entardecer, e costuma se reproduzir em locais com matéria orgânica em decomposição.
Existem relatos na literatura sobre a transmissão da doença na ausência do vetor, sendo descrita a transmissão vertical (da mãe para o feto através da placenta), transmissão venérea unidirecional de macho para fêmea (machos infectados transmitem para fêmeas durante cópula), por transfusão sanguínea e transmissão por artrópodes não-flebotomíneos (picada de pulgas e carrapatos).

No cão, o período de incubação médio da doença é superior a quatro meses, porém com variações neste período de 2 meses até 6 anos. Em geral os primeiros anticorpos são observados em 45 dias após a infecção. Cães com Leishmaniose podem ser assintomáticos, oligossintomáticos (apresentando apenas alguns sintomas) ou sintomáticos. Estima-se que 50% dos cães infectados sejam assintomáticos, o que sugere a existência de animais resistentes ou com infecção recente nessa população. Os sintomáticos podem apresentar emagrecimento, prostração e perda do apetite. São comumente observadas alterações
dermatológicas como dermatite seborréica, alopécia periorbital (falha de pêlo ao redor dos olhos) e onicogrifose (crescimento exacerbado das unhas). Observa-se também com grande freqüência sinais como a linfadenomegalia (aumento de tamanho dos gânglios), hepatoesplenomegalia (aumento de tamanho de fígado e baço), pneumonia, diarréia, insuficiência renal crônica, anemia, hemorragias, neuropatias como encefalite e meningite, poliartrites e alterações oculares como conjuntivite.

Com relação à leishmaniose visceral humana, observa-se que a maioria dos indivíduos permanece assintomática, caracterizando-se apenas como portadores de uma infecção subclínica. Aqueles que desenvolvem a doença apresentam inicialmente quadro febril, geralmente diário, acompanhado de aumento do volume abdominal, em decorrência da hepatoesplenomegalia. As vísceras atingirão volumes de grandes proporções, principalmente o baço, se o paciente não for tratado. Haverá ainda perda de peso, perda do apetite e palidez mucocutânea.
Existem relatos de leishmaniose visceral em felinos principalmente nas regiões consideradas endêmicas. Apesar da ocorrência de infecções esporádicas, a espécie felina não é considerada, até o momento, reservatório importante da doença. São pouco conhecidas a prevalência, a transmissão e o quadro clínico da enfermidade nessa espécie que normalmente é inespecífico e se assemelha aos sintomas observados na espécie canina. Evidências apontam que a leishmaniose felina pode estar associada a doenças imunossupressoras, tais como a leucemia (FeLV) e imunodeficiência viral felina (FIV).
A leishmaniose visceral canina é uma doença de difícil diagnóstico, sendo necessário muitas das vezes a realização de vários exames, bem como sua repetição. Os informes clínicos, principalmente em pacientes sintomáticos são bastante relevantes, entretanto devem ser complementados com exame sorológico, parasitológico, hemograma, proteinograma e provas de função renal e hepática.
As medidas adotadas na prevenção da leishmaniose canina devem ser baseadas no controle do vetor (mosquito), através de borrifação de inseticidas nas áreas intra e peridomiciliar. No cão, o uso de coleira a base de Deltametrina e produtos tópicos com ação repelente do mosquito devem ser considerados. Realizar limpeza freqüente dos locais de acúmulo de matéria orgânica como canis, galinheiros, viveiros e gaiolas de pássaros, quintais com árvores ou jardins e lotes vagos. Devem ser evitados passeios com o cão em horários de repasto sanguíneo do mosquito (entre 06h00min e 07h00min e 18h00min e 19h00min), lembrando-se dos períodos de horário de verão existente em alguns estados.

A proteção imunológica possui, atualmente, enorme representatividade na prevenção da doença em cães, devendo ser considerada a vacinação do animal, já que existem vacinas contra Leishmaniose disponíveis no mercado.
A eutanásia de cães soropositivos é recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde), entretanto a própria entidade reconhece o grande valor afetivo, econômico e prático destes animais, na grande maioria das vezes, não podendo ser eliminados indiscriminadamente. Outro fator importante está relacionado à ineficácia do extermínio destes cães no controle da doença, e um dos fatores para tal se relaciona ao método de exame adotado, que em diversas situações gera resultados falso-positivos. A eliminação do vetor é necessariamente o método mais eficaz na prevenção da Leishmaniose visceral. Portanto todo e qualquer animal que manifeste sintomas de leishmaniose deve ser encaminhado aos cuidados do profissional médico veterinário que irá orientar e adotar condutas que melhor convierem ao bem-estar de seu paciente, das pessoas que convivem com ele e da população de um modo geral.

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